Um especialista em seguros contou ao jornal britânico Telegraph que o uso
de serviços sociais móveis baseados em localização,
como o Google Buzz, o Twitter, o Facebook e o Foursquare poderiam fazer com que
o prêmio de seguro aumentasse, ou mesmo motivar a recusa de pedidos de indenizações.
Por que?
Um site web criado como brincadeira, chamado “Please Rob Me” (por
favor me roube), levantou uma verdade cruel, mas óbvia, sobre as redes
sociais móveis que se apoiam em tecnologias de localização:
quando você diz ao mundo onde está, também está dizendo
aos ladrões que você não está em casa.
No início, o site originalmente mostrava uma corrente de posts, do Twitter
e do Foursquare, que poderiam interessar a criminosos. Desde então, o
Twitter se desligou do site e, aparentemente, todos os novos posts no Please
Rob Me vêm do Foursquare.
Cada post começa com o nome do usuário, seguido por “left
home and checked in” (algo como ‘saiu de casa e apareceu em’)
e pelo endereço exato de onde a pessoa está.
Negligência virtual
Observadores da indústria de seguros, como o entrevistado pelo Telegraph,
preveem que, quando um cliente for roubado e buscar a indenização
prevista no seu contrato de seguro, as empresas seguradoras provavelmente investigarão
para ver se esse cliente disseminou informações em redes sociais
de um modo que caracterizaria “negligência”.
Eles poderiam também tornar os seguros contra roubo contratados por
usuários de redes sociais equivalentes aos dos fumantes no caso dos seguros
de saúde – ou seja, tratá-los como uma categoria de clientes
que pagam prêmios mais caros, por oferecer mais risco.
E, se o Twitter e o Foursquare podem expor os usuários a criminosos,
o Google Buzz é ainda mais comprometedor.
Com o uso dos recursos de localização móvel do Google
Buzz em combinação com o Google Profiles e outros serviços
grátis da internet, criminosos podem descobrir rapidamente quem você
é, onde está, qual sua aparência, onde mora, e se está
em casa. Golpistas podem rastrear suas vítimas e obter, pela rede, todas
as informações de que precisa para armar seus golpes.
É uma notícia ruim para o Google, diante da já problemática
estréia do Buzz. Assim que o Buzz surgiu, os usuários passaram
a ser automaticamente seguidos por uma lista de pessoas com as quais eles trocaram
e-mails mais recentemente.
A menos que os usuários fossem habilidosos o suficiente para mudar as
configurações de privacidade no Google Profiles, algo que a maioria
deles sequer suspeitava que existia, essa lista dos contatos mais freqüentes
era tornada pública.
Médicos e advogados tiveram as identidades de seus pacientes e clientes
reveladas. Contatos pessoais foram expostos a empregadores. Erros foram cometidos.
O Google se desculpou e consertou o problema, mas não a tempo de evitar
uma ação de classe na Justiça dos EUA.
É fácil falar do Google, pois seus serviços são
muito populares, e o Buzz ainda é novidade. Mas a verdade é que
o Buzz é apenas uma pequena parte da nova “insegurança social”.
Nós abraçamos a inovação rumo a um estranho novo
mundo de confusão e de comprometimento da privacidade.
Quanta privacidade ainda temos?
Nós vivemos agora em um mundo de serviços online onde a privacidade
é frequentemente violada como padrão.
Para entender isto e fazer algo a respeito, você precisa ser uma pessoa
excepcional. O usuário ou consumidor médio não pode nem
imaginar como resguardar sua privacidade.
Uma política mínima de salvaguarda da privacidade pessoal requer
hoje em dia que os usuários tomem ações inteligentes a
respeito de configurações relativamente obscuras, pouco discutidas,
profundamente escondidas e frequentemente confusas em serviços como Facebook,
Gmail, Profiles, Twitter e um mundo de outros serviços sociais online
– e, acima de tudo, em seu próprio aparelho celular.
Suas fotos no Facebook são configuradas como públicas ou privadas?
Quando você publica fotos de seus filhos ou da esposa no Facebook, elas
estão disponíveis para sites de busca de imagens? Haverá
lunáticos buscando essas fotos no Google, no Bing ou no Yahoo para republicá-las
em sites igualmente lunáticos?
Quando você publica algo usando o Google Buzz, seus tweets vão
para as pessoas que o seguem ou para o mundo todo?
O recurso de localização GPS de seu celular está ligado
ou desligado? Se estiver ligado, há algum serviço, empresa ou
pessoa capaz de acessar seus dados?
Pode apostar: mais de 90% dos usuários não saberiam responder
a essas questões. Mas mesmo os usuários mais habilidosos geralmente
não fazem ideia de quanto de sua privacidade tem sido violada.
E-mail e sigilo
Por exemplo, sabemos que os computadores do Google leem todos os seus e-mails
todo dia. Programas especiais varrem as palavras que enviamos e recebemos para
que o Google possa incluir anúncios próximos às mensagens,
que sejam relacionadas com as conversas.
Será que os funcionários do Google leem tais mensagens, talvez
como exemplo de pesquisa ou marketing? Como saberemos se isso ocorreu? E se
você confia no governo dos EUA, será que o governo da China está
lendo seus e-mails? Hackers? Chantagistas? Seu patrão? Como saberemos?
Não é só que você não sabe quem está
lendo seu e-mail. Você simplesmente não pode saber. E nunca saberá.
Como disse profeticamente Scott McNealy, fundador da Sun Microsystems, 11 anos
atrás: “Você tem privacidade zero de qualquer forma. Acostume-se
a isso.” Mas já não é tão simples.
Ele estava falando mais de preocupações sobre privacidade comprometida
por empresas e governos, que poderiam potencialmente, de algum modo, usar seus
dados privados para propósitos que você não aprovaria.
Mas agora, graças aos serviços sociais que não existiam
quando McNealy levantou sua verdade inconveniente, o tema privacidade simplesmente
explodiu.
Nós ainda temos de nos preocupar com governos e corporações,
mas agora também devemos ficar preocupados com empregadores, criminosos
e até membros da família.
Eis cinco exemplos dos muitos modos de como a privacidade pode ser violada.
1::Marcação de fotos no Facebook
Você é um cidadão respeitável, um pilar da comunidade.
Você é ativo na câmara de comércio e nas organizações
locais de caridade. Você é um executivo sênior em sua empresa,
e um membro ativo da igreja. Seus filhos acham que é perfeito. Aí
seu antigo colega de colégio publica uma foto em que você aparece
vomitando sem camisa em uma rave punk nos anos 80, com um cigarro numa das mãos,
uma garrafa de uísque na outra, e um cabelo rosa estilo moicano na cabeça.
Ele marca você na foto, que é colocada no seu mural do Facebook.
Agora essa foto foi compartihada com sua mãe, seus filhos, seu chefe,
seus colegas. Uma vez vista, não pode ser esquecida. Se alguém
copiou a foto, ela agora estará “lá fora”. Desista
de concorrer a qualquer cargo público.
2::Bisbilhotice via Google Buzz
Quando você disparar o Google Buzz em seu iPhone, celular com Android
ou – daqui a pouco, provavelmente – qualquer smartphone, e tocar
o botão Nearby, você terá uma lista de posts de estranhos
na tela, listados de acordo com a distância até você. Seus
nomes de usuários poderão levar a seus perfis, o que provavelmente
permitirá o contato via e-mail (como o Craigslist, o endereço
de e-mail pode ser privativo, mas qualquer um ainda poderá enviar e-mail
via Profiles). O que impedirá qualquer comércio de abrir o Buzz
todo dia e colher contatos de pessoas que vivem ou passam pela vizinhança?
3::Coleta de provas no Street View
As chances de que você apareça em pessoa no Google Street View
é próxima de zero. As chances de que muitas pessoas sejam expostas
ao Street View fazendo algo embaraçoso é próxima de 100%.
Graças ao compartilhamento social, toda transgressão capturada
pela van do Google Street View será exposta, transmitida, compartilhada
e armazenada para sempre em centenas ou milhares ou milhões de discos
rígidos ao redor do mundo. Se você é um desses sortudos
pegos fazendo algo desagradável no Street View, as pessoas que você
conhece ficarão sabendo. E fotos engraçadas são para sempre.
4::Mistura de grupos sociais
É fácil esquecer quem o está seguindo. Os usuários
do Facebook geralmente publicam informações comprometedoras. Alguém
poderia, por exemplo, dizer à empresa que ficou doente apenas para ir
à praia – esquecendo que seu chefe é um de seus amigos no
Facebook. Jovens podem ter seus colegas em mente quando publicam algo, mas se
esquecem de suas mães. E em redes sociais como o Twitter ou o Buzz, é
possível que as pessoas que você conhece o seguem sob um pseudônimo.
5::Compartilhamento do tipo “faça e esqueça”
Novos serviços sociais surgem todo o tempo. Nós nos inscrevemos,
experimentamos, e depois nos esquecemos dele quando coisas novas e mais brilhantes
surgem no horizonte. Por exemplo, o Google lançou o serviço de
localização Latitude há um bom tempo. Você o experimentou?
Se sim, você o desligou? Você ainda pode ser rastreado? A dura realidade
é que a maioria de nós não tem idéia se deixamos
um rastro de serviços comprometedores da privacidade em nosso caminho.
Claro que McNealy estava certo. Em teoria, nossa privacidade é zero.
Uma pessoa ou organização motivada e habilidosa pode sempre aprender
mais coisas sobre nós do que nós mesmo somos capazes de saber.
É uma boa ideia colocar o senso comum em ação quando usar
a internet. Não publique informações que possam ser úteis
a golpistas. Tenha cuidado com o que compartilha, e com quem compartilha. Atenção
quando comunicar sua localização, seja manualmente ou automaticamente.
Mas mesmo o mais meticuloso usuário antissocial não poderá
atingir a verdadeira privacidade.
A estranha nova realidade da “insegurança social” é
esta: o melhor que podemos fazer é tornar a violação da
nossa privacidade um pouco menos conveniente para aqueles que a pretendem explorá-la.
(Mike Elgan)