Responda se puder: existe algum spybot estrangeiro em execução no
sistema da sua empresa, em busca de vantagens que possa explorar? Apesar do tom
alarmista, essa modalidade de espionagem eletrônica é real. Trata-se
de uma ameaça escondida sob o lenço da inocência, mas de poder
destrutivo alto - altíssimo, aliás -, e bastante difundida.
Na lista de atribuições dos departamentos de TI ou de um executivo
de segurança, cuidar da prevenção da rede contra ataques
externos de difícil detecção e aplicar as tecnologias disponíveis
para tal função deveria ser da mais alta prioridade. Existe muita
coisa em jogo para ignorar essa questão.
Muitos especialistas em segurança acreditam que cada vez mais empresas
são alvo de espionagem eletrônica - vinda, principalmente, de países
como a China. O que torna o problema ainda mais grave é o fato de essas
técnicas serem de difícil detecção pelos métodos
tradicionais.
Os espiões eletrônicos tentam entrar nos sistemas sem causar interrupções
ou causar qualquer distúrbio, a fim de colher informações
durante um determinado período.
Esse tipo de ataque é muito mais difícil de identificar que as
ameaças não especializadas, aquelas que a toda hora são
identificadas por antivírus e softwares de proteção de
dados na web. Ocorre que os ataques especializados não ficam tempo suficiente
nas máquinas para serem encontrados, relatados às empresas fabricantes
de sistemas antivírus e erradicados ou impedidos de rodar.
Um ataque com foco em um sistema determinado pode ser formatado de maneira
a contornar todo o contingente de softwares de segurança instalado.
Sério e real
Quem observa o segmento da computação afirma que a espionagem
eletrônica torna-se cada dia mais comum. Sentado na cadeira de vice-presidente
da Gartner, Neil MacDonald afirma que 75% das empresas já foram ou estão,
neste momento, sob ataque de programas que têm como objetivo causar danos
financeiros, e que se encontram fora do escopo de investigação
dos programas de antivírus.
Todas as entidades governamentais e financeiras – detentoras de informações
sigilosas – certamente estão sob ataque. Segundo MacDonald, o ataque
ocorrido no início do ano contra a rede do Google, na China, foi uma
amostra do que está por vir. Vários clientes da Gartner denunciaram
ataques no mesmo período e com base em métodos semelhantes.
Para alguns, a dificuldade na determinação da difusão
desses tipos de atividade está no fato de eles serem muito complicados
de rastrear.
“Por um lado, sabemos da dificuldade de identificar esses ataques; mas
o segredo com que eles são tratados ao serem identificados torna a investigação
muito mais difícil”, disse o pesquisador-chefe da Cryptography
Research, Paul Kocher.
Para as organizações que realizam os ataques, qualquer ação
descoberta é considerado um fracasso absoluto. Então o único
tipo de informação que vaza sobre essas ações são
ataques falhos.
“Como o cerne de toda a questão é envolto por uma grossa
camada de sigilo, não existe maneira de saber o real tamanho do problema.”
A afirmação parte do conselheiro-chefe da empresa de auditoria
PricewaterhouseCoopers, Mark Lobel.
“Mas não se engane: o clima parece calmo e com pouca agitação,
mas ficamos sabendo em conversas com gente atuante no segmento que a questão
se alastra de maneira mais agressiva do que sugere o senso comum”, afirma
Lobel.
Quem espiona?
Mesmo que o ataque seja descoberto, identificar o autor é praticamente
impossível. Sim, é possível rastrear o IP da máquina
de onde partiu o ataque, mas, muito provavelmente, será um computador
comprometido, fazendo papel de proxy ou de relay.
Atualmente, a maioria dos fornecedores de softwares antivírus trabalha
com um esquema de assinatura quando procuram por vírus e outras pragas
virtuais.”Já em nações como a China, detentoras dos
recursos e da expertise, os invasores não têm problemas em explorar
os códigos avançados e outros ataques do dia zero que as empresas
de antivírus não têm como identificar”, diz o investigador
corporativo Brandon Gregg, que pretende lançar um curso de combate às
ações de espionagem eletrônica em meados de setembro.
A China é, várias vezes, apontada como origem de ataques de espionagem
eletrônica, mas, certamente não é a única fonte dessas
ameaças. “É da natureza humana encontrar um bode expiatório.
Mas, depois de analisar os dados que chegaram até mim, e pelo que ouço,
a questão é um tanto mais complexa”, afirma o CSO da empresa
de games Zynga e cofundador da Cloud Security Alliance, Nils Puhlmann.
Ele não quer dar detalhes, mas dá a entender que os espiões
eletrônicos estão baseados em vários países e não
precisam, necessariamente, ser subsidiados pelo Estado.
Determinados sites, como hackerforum.com dão aos hackers todas as informações
de que precisam para controlar qualquer computador conectado à Internet.
Anatomia da invasão
Um ataque típico começa por explorar vulnerabilidades diversas
para atingir um objetivo principal: furtar informações ou comprometer
uma determinada conta. Qualquer usuário em uma organização
pode receber um e-mail bem escrito e de aparência confiável (técnica
chamada de spearphishing) e, de forma inadvertida, instalar um spyware a partir
da estação de trabalho.
Outros ataques podem ser gerados a partir de um hacker que usa informações
públicas, a partlr delas, elabora as tentativas. Mesmo que nem todo tipo
de informação disponibilizado na web seja confidencial, quando
são combinados com outros dados disponíveis - inclusive por outras
empresas -, um certo padrão pode começar a aparecer.
“É perfeitamente possível unir pedaços de informações
não confidenciais para deduzir um modo de chegar ao conjunto de dados
críticos”, avisa Lobel, da PricewaterhouseCoopers.
É possível que um hacker se aproveite de uma brecha na segurança
ou uma configuração frágil para assumir a identidade de
determinado usuário ou instalar um posto de vigia.
Outro alvo de ataques são as vulnerabilidades desconhecidas do público.
Também existe a chance de ocorrer suborno para obter informações
que viabilizem a invasão.
Em um ataque planejado, é possível explorar mais de um sistema
ou determinada brecha em nível de aplicativo. Uma vez comprometido, todo
o ambiente interno da rede pode ser lentamente conquistado com a finalidade
de atingir o objetivo maior da invasão.
Não é raro que hackers “plantem” escutas em pontos
de entrada e de saída de dados de sistemas. Isto pode se dar através
de servidores de log, local pouco investigado por programas de segurança.
Os softwares colocados pelo hacker enviam as informações coletadas
por meio de protocolos FTP, e aos poucos. Dessa maneira, não se destacam
no tráfego da rede nem atraem atenção para seu funcionamento.
Na mira
Se você acha que a organização em que trabalha não
se enquadra no menu de predileções de hackers com intuito de fazer
dinheiro, reveja seus conceitos.
Apesar de sistemas militares e sites governamentais sempre serem os preferidos,
as empresas prestadoras de serviço de transporte também são
atraentes. Isso porque, uma vez invadido o sistema, obtém-se acesso às
informações de várias empresas. Entre esses serviços
destacam-se os webmails, redes telefônicas, bancos de dados de transportadoras
e redes sociais.
“Qualquer empresa que mantenha um contingente de dados com cunho de propriedade
intelectual ou relativo a pesquisas e desenvolvimento é atraente aos
olhos de espiões”, afirma o COO da Good Harbor Consulting, especialista
em segurança de dados governamentais, Paul Kurtz.
“Os adversários irão sempre olhar para a cadeira de fornecedores
quando se trata de conseguir acesso a dados críticos. Isso faz de fornecedores
de entidades governamentais um alvo tremendamente importante.”
Riscos
“O pior cenário possível é o seguinte: perda total
das vantagens competitivas”, diz Lobel. Por exemplo, uma entidade governamental
que esteja realizando espionagem eletrônica pode passar produtos de propriedade
intelectual para um concorrente. Isto poderia poupar o concorrente dos investimentos
com pesquisa e desenvolvimento, sem mencionar o tempo investido para chegar
ao resultado.
Em outro caso, poderiam ser passadas informações referentes a
produtos que estejam prontos para o lançamento.
De acordo com Kurtz, “as empresas do setor privado têm os maiores
prejuízos atualmente. Isto se deve ao fato de o governo não fazer
qualquer coisa para protegê-las. Nessa mão, as entidades privadas
acabam sofrendo de hemorragia de propriedade intelectual, perdem a confiança
de investidores e, por consequencia, participação de mercado.”
As empresas não precisam limitar suas preocupações ao
conjunto de dados, mas o risco de cair no conceito público por permitir
que dados pessoais dos funcionários sejam extraviados também faz
parte das ameaças às quais estão expostas.
Defesa e combate
Muito possivelmente, não existe uma maneira 100% segura de proteger
a organização contra esse tipo de ataque, altamente sofisticado.
Essa realidade é especialmente cruel considerando-se que as nações
dispõem de recursos inacessíveis a muitas empresas.
Mas existe uma série de passos que pode ser dada na prevenção,
ou na redução, das chances de sofrer ataques.
Uma das estratégias elegíveis é a prática da defesa
de baixo nível. Isso implica em configurar várias camadas de segurança;
na eventualidade de uma falhar, sempre haverá outra barreira a ser ultrapassada.
Essa estratégia significa aplicar tecnologia de ponta e consiste em
educar os funcionários sobre os riscos e mostrar a eles como podem combater
as tentativas de espionagem.
Se os recursos permitirem, contratar pessoas especializadas em descobrir e
se defender contra métodos de espionagem eletrônica, pode ser uma
alternativa.
MacDonald, da Gartner, recomenda às empresas que cuidem dos quesitos
básicos antes de mais nada. Atualizações constantes e perseguir
padrões de gestão, além de treinar usuários, fazem
parte dessa lista básica.
Como boa parte dos ataques acontece através de e-mails e de outros canais
da web, é uma boa ideia incrementar a segurança do gateway responsável
por transportar esse tráfego. Catapultar essa rota às plataformas
mais recentes e com maior segurança baseadas, por exemplo, na verificação
da reputação do endereço pretendido é altamente
recomendado.
Outra iniciativa que pode trazer resultados é migrar de proteção
local, como antivírus e programas de detecção de spywares
para soluções locais, que providenciem uma série de recursos,
tais como firewalls, antispam, antivírus e detecção de
tentativas de invasão nas máquinas.
“Parta sempre do princípio da insegurança”, sugere
MacDonald. “Atualize e incremente a capacidade de detecção
executando um monitoramento do sistema, da rede, dos aplicativos e das transações
entre fontes de dados distintas. O objetivo é encontrar comportamentos
suspeitos de softwares; qualquer coisa fora da rotina pode ser um indicativo
de sistema comprometido", ressalta.
Kocher, da Crytpography Research, dá a dica. "A melhor forma de se
defender é fragmentar a rede local em redes menores, isoladas fisicamente.
"Com o crescimento da rede, a probabilidade de ataques aumenta. Em minha
empresa, temos uma rede desligada do resto das máquinas que operam conectadas
na Internet. Essa rede tem cabeamento e impressora próprios."
Para acessar a web, os funcionários têm laptops e, nestes, não
há qualquer massa de arquivos essenciais. Máquinas com dados preciosos
não têm acesso à Internet e ponto final.
Contra o ditado
"Apesar do ditado, no caso das empresas a ignorância não
traz felicidade, muito menos quando o assunto é segurança dos
dados", diz MacDonald.
As companhias acreditam estar cobertas por softwares antivirus e, sempre que
uma varredura na rede termina sem qualquer alerta, elas descansam crentes de
estarem seguras. Essa ignorância se perpetua até que, depois de
vários meses, descobrem que hospedavam um espião na rede.
"A negação funciona até não funcionar mais",
finaliza.
(Bob Violino)