Desde 1996, o site Cryptome tem divulgado documentos que governos e empresas gostariam
que permanecessem secretos. Agora o Cryptome estende seu olhar à web com
a liberação do Microsoft Online Services Global Criminal Compliance
Handbook, um “guia de espionagem” para agentes da lei e que traz detalhes
sobre os dados que a Microsoft obtém, guarda e pode fornecer.
Como a maioria de nós é usuária da Microsoft, há
algumas informações que você precisa saber antes de comprar
pontos do Xbox Live, se conectar ao Office Live, ou enviar um e-mail no Hotmail.
O que é o “guia de espionagem”?
O Global Criminal Compliance Handbook é um documento explicativo semiabrangente
concebido para investigadores, policiais e outros agentes da lei que querem
acessar as informações armazenadas pela Microsoft. Ele também
oferece amostras de texto para uso em intimações e diagramas que
ajudam a entender os registros dos servidores.
O termo “semiabrangente” se justifica aqui porque, com apenas 22
páginas, ele não explora os bits e bytes dos sistemas da Microsoft;
é mais como um guia de caça à informação,
feito para leigos.
Quais serviços da Microsoft são abordados?
Todos. A Microsoft mantém as informações dos usuários
relacionadas aos serviços online. Os dados abrangem de e-mails antigos
a números de cartão de crédito. A informação
é mantida por um certo período de tempo – às vezes,
para sempre.
Os sites mencionados são:
Windows Live
Windows Live ID
Microsoft Office Live
Xbox Live
MSN
Windows Live Spaces
Windows Live Messenger
Hotmail
MSN Groups
Alguns desses serviços da Microsoft podem não se aplicar a um
grande número de pessoas. Quem usa o MSN Groups, afinal? Mas o acesso
a informações pessoais das contas Xbox Live, por exemplo, pode
ser um problema para seus 23 milhões de assinantes, especialmente porque
o Xbox Live guarda mais dados do que a maioria dos outros serviços da
empresa.
Que informações a Microsoft tem?
Depende do serviço. Segue uma lista dos principais.
::Windows Live ID
A Windows Live ID é um dos principais canais de retenção
de dados de usuários. Ela é usada em diversos sites, para limitar
a criação de diferentes nomes de usuário e senha. Por seu
amplo alcance, o Windows Live ID poderia dar às autoridades legais o
acesso a toneladas de informações pessoais sobre a navegação
na web. A Microsoft mantém “as 10 últimas combinações
de conexão IP e site visitado” dentro do portal da empresa, “e
não as últimas dez conexões IP consecutivas”.
No fim da contas, isso não é lá tão ruim. Mas pode
ficar pior.
::Hotmail
“Os dados de registros de contas de e-mail são retidos por toda
a existência da conta. O histórico de conexões IP é
retido por 60 dias”, de acordo com o documento. Mas se você, como
muitos, migrou para o Gmail e abandonou o Hotmail, todo o conteúdo da
conta é “geralmente apagado depois de 60 dias de inatividade. Se
o usuário não reativar sua conta, os serviços gratuitos
MSN Hotmail e Windows Live Hotmail se tornarão inativos depois de um
período de tempo”.
O conteúdo de e-mail mais antigo que 180 dias pode ser aberto “desde
que a entidade governamental siga as instruções de notificação
do consumidor” da legislação norte-americana. Se o conteúdo
for mais novo do que 181 dias, você precisará de um mandado de
busca.
::Xbox Live
O Xbox Live armazena vários tipos de informação:
Gamertag
Número do cartão de crédito
Telefone
Primeiro e último nome, com CEP
Número de série (mas apenas se o console tiver sido registrado
online)
Número de solicitação de serviço da Xbox Hotline
Conta de e-mail (como @msn.com, @hotmail.com ou qualquer outra conta Windows
Live ID)
Histórico de IP pelo tempo de vida da gamertag (apenas uma gamertag por
vez)
Essas informações são colhidas e mantidas para propósitos
bem intencionados, por isso não fique completamente paranóico.
Por exemplo, se seu console Xbox 360 for roubado, a Microsoft poderá
caçá-lo usando seu grande banco de registros com dados sobre você
e sua máquina.
::Office Online e Windows Live SkyDrive
A parte mais assustadora do manual aparece agora. O Office Online e o Windows
Live SkyDrive são serviços que armazenam documentos e arquivos
na nuvem. As duas páginas dedicadas a estes serviços descrevem
somente o que os produtos são e não o acesso que a Microsoft tem
à informação. O que a Microsoft pode obter daí?
Por quanto tempo os arquivos são mantidos? Quais são os parâmetros
legais? Tudo isso é incerto, o que provoca um certo frio na espinha.
A cloud computing (computação em nuvem) é a nova tendência
em tecnologia. Empresas podem armazenar documentos financeiros e de negociação
sigilosos em uma das nuvens da Microsoft. Se solicitado pelo governo, a Microsoft
poderia (ou não?) mergulhar suas mãos em suas planilhas e extrair
de lá o que quiser.
O jargão jurídico
A última parte do documento detalha os procedimentos legais necessários
para obter informações da Microsoft. Mas com as escutas sem mandado
virando moda ultimamente – como evidenciado pelo obscuro acordo do Google
com a NSA – ninguém sabe ao certo quantos lacres o governo precisa
quebrar para conseguir o que quer.
Uma história breve
Não se sabe como John Young, dono do Cryptome, obteve o Global Criminal
Compliance Handbook; o certo é que sua ação mereceu a atenção
da Microsoft. A empresa entrou rapidamente com uma ação na Justiça,
baseando-se na Digital Millenium Copyright Act (DMCA), alegando violação
de direito de autor.
Em 1998, a DMCA tornou crime a produção e a divulgação
de métodos tecnológicos capazes de burlar proteções
como a DRM, que visam controlar o acesso a produção protegida
por direitos autorais. Ela também criminaliza a ação de
contornar um controle de acesso, tenha ou não a intenção
de infringir um direito de autor.
Algumas organizações têm um problema com o uso da DMCA
nesse caso. A Electronic Frontier Foundation “vê problemas na invocação
do direito de autor aqui. A Microsoft não vende este manual. Não
há mercado para esta obra. Não é um assunto de direito
de autor. A cópia de John é para uso justo. Isso é uma
questão para a lei de expressão”, disse Cindy Cohn, da Electronic
Frontier Foundation, ao ReadWriteWeb. Cohn afirmou que em casos que envolvem
ofensas ou segredos comerciais há um procedimento de ir à corte,
abrir um caso, e obter uma injunção – preencher uma queixa
DMCA, como foi feito, “torna a censura fácil”.
De qualquer modo, a vontade da Microsoft prevaleceu. O hospedeiro do Cryptome,
a Network Solutions, tirou o site do ar. Na quarta-feira (24/2), Young solicitou
um recurso à Justiça. (Nesta sexta-feira, 26/2, o site voltou
ao ar, depois que a Microsoft retirou sua queixa com base na DMCA. A Microsoft,
por sua vez, divulgou uma nota sobre o caso, em que afirma que "não
pedimos que o site fosse tirado do ar, apenas que o conteúdo da Microsoft
fosse retirado do ar. Estamos pedindo que o site seja restaurado e não
exigimos mais que o documento seja removido", afirmou a empresa.)
Pessoalmente, penso que The Global Criminal Compliance Handbook não
é tão perigoso como alguns podem pensar (exceto pela parte da
cloud computing). A Microsoft precisa de medidas para colaborar com o governo
em caso de perigo, simples assim. Mas com tanta informação lá
fora, boa parte sob “domínio” da Microsoft, não posso
ter senão um sentimento de vulnerabilidade e exposição.
E pelo bem da liberdade da internet, é crucial que o Cryptome permaneça
no ar. O site serve a um propósito claro e importante; sua mais recente
– e talvez a última – divulgação é prova
disso.
(Brennon Slattery)