Um artigo recente da revista Forbes aconselhou aos leitores assumir que as empresas
para as quais trabalham já foram hackeadas. Alguns leitores têm pedido
minhas considerações a respeito, e eis o que penso: o artigo pode
até ter exagerado no tom, mas no fim das contas a proposição
é bastante apropriada. Boa parte das empresas são ativamente hackeadas
e seus dados confidenciais são roubados e repassados a terceiros.
Há os que dirão que tais afirmações são
imprecisas e sem fundamento, e se perguntarão onde estão as provas
que lhes serviriam de base. É verdade. Não há dados ou
pesquisas que sustentem a conclusão. Levantamentos e entrevistas só
podem medir os incidentes de segurança conhecidos; é difícil
medir os desconhecidos. Mas, no último caso, sobram evidências
circunstanciais.
Não posso dizer quando isso ocorreu. Mas, no decorrer dos últimos
dois ou três anos, me dei conta de que todas as companhias nas quais trabalhei
foram hackeadas. E esse sentimento vai além da minha própria experiência
pessoal. Pergunte a qualquer consultor de segurança da informação
que tenha contato com uma boa base de clientes e eles lhe dirão a mesma
coisa: “Sim, toda empresa é hackeada!”.
Mas o nível da invasão pode diferir entre as empresas de diferentes
tamanhos. Toda empresa é invadida no sentido que elas provavelmente têm
um ou mais computadores onde estão instalados algum programa malware,
zumbi ou Trojan.
Alvo de interesse
Se a empresa tem tamanho que desperta interesse ou atua numa indústria
que depende de dados extremamente valiosos (por exemplo, uma que concorra com
empresas estrangeiras, escritórios de advocacia, ou indústrias
militares), é bem provável que um hacker malicioso tenha instalado
vários programas do tipo backdoor e enviado lotes de dados sigilosos
para outros locais.
Nas grandes empresas que visitei, os hackers chegaram a configurar programas
que procuravam automaticamente por novos arquivos e pastas e enviavam para o
site remoto apenas as informações alteradas. Essas empresas mal
sabiam que tinham um serviço de "backup offsite".
Toda empresa com a qual lidei tinha dúzias de grandes vulnerabilidades
de segurança. Os empregados de TI com os quais conversei admitiam que
as defesas das empresas nas quais trabalhavam eram aplicadas de modo irregular
e que sabiam de buracos de segurança muito maiores, que nem eu havia
encontrado em minha limitada pesquisa. Raramente essas questões de segurança
são novidade; a maioria tem vários anos e são bem conhecidas
pelos gerentes de TI.
Há uma chance de que sua empresa não tenha sido hackeada. Mas,
no ambiente hiperativo do crime cibernético da atualidade, isso é
improvável. Se você ainda não foi hackeado, ou é
extremamente bom (com uma gestão perfeita de suporte e recursos) ou sortudo.
O que fazer
Então como isso deveria afetar seu comportamento e suas táticas?
Primeiro, e apesar de parecer estranho, provavelmente não será
uma má ideia avisar o gerenciamento sênior de TI desse risco, isso
se você já não o tiver feito. Se eles reagirem mal, mostre
a eles este texto (ou o artigo da Forbes), e faça uma lista das principais
questões de segurança que há anos permanecem abertas na
empresa.
Segundo: o melhor jeito de prevenir invasões é travar as estações
de trabalho e os servidores e permitir que apenas software pré-aprovado
rode neles. A maioria dos departamentos de TI não tem ideia sobre o que
roda em todos os computadores sob seu controle. Use um programa de inventário
de software ou de controle de aplicativos para se informar sobre o que está
em uso, revise cada programa ativo, aprove o que seja necessário e impeça
o resto de funcionar. Se você não puder tomar essa medida, então
a batalha estará provavelmente perdida – mas há outras ações
que poderão ser seguidas, embora menos efetivas.
Uma das principais técnicas consiste em monitorar ativamente o tráfego
da rede e buscar por grandes quantidades de dados sendo transferidas para destinos
desconhecidos, ou entre computadores que não deveriam ter comunicação
entre si. É bastante comum que os hackers copiem dados internamente para
um computador centralizado antes de comprimi-los e enviá-los a um local
externo. Há muitas ferramentas, bem como produtos que previnem e detectam
vazamento de dados, que podem ajudá-lo com essas tarefas de mensuração
e alerta.
Como sempre, sou grande fã de computadores “honeypot”, que
ficam num canto, sem fazer nada, esperando alertá-lo quando alguém
inadvertidamente tenta fazer logon. Os hackers podem ser bons, mas ainda estou
para encontrar um que, antes de usar suas técnicas de invasão,
não tente pelo menos um logon.
Isca falsa
Algumas empresas introduzem, em suas redes, conjuntos de dados apenas para chamar
a atenção, para que possam ajudá-los depois na identificação
de dados que possam ter vazados pra fora da empresa. Algumas vezes isso é
tão simples quanto criar alguns endereços falsos de e-mail que
nunca serão usados. Outros esquemas chegam ao ponto de criar registros
de dados, projetos e até empresas completamente fictícias.
Uma das empresas para as quais trabalhei atuava no ramo de pescados. Seus bancos
de dados internos continham um cliente inexistente, porém completamente
documentado. A empresa fictícia recebeu um número de telefone
sem uso (registrado em nome da empresa-pai) e um endereço que pertencia
a uma de suas subsidiárias. Mas nenhuma dessas informações
existiam fora do ambiente interno de TI da minha cliente.
Um dia, a empresa falsa começou a receber e-mails e chamadas telefônicas
de uma concorrente da companhia de pescados. O caso foi investigado e, no processo,
eles descobriram um sofisticado e singular programa Trojan que havia sido instalado
em seu principal servidor de banco de dados. O programa tinha estado lá
por tanto tempo que o pessoal de TI já o tinha incluído na “imagem
dourada” – a cópia utilizada internamente para a criação
de servidores de bancos de dados. Agora eles têm um sólido controle
de mudanças e uma lista de todos os programas rodando em cada servidor
e estação de trabalho.
Mesmo se não tiver sido hackeado de verdade, você deveria agir
como se tivesse e, dessa forma, decidir o que faria de diferente para combater
os hackers. No fim, é o que todos acabaremos por fazer um dia.